A falta ou a privação, ao contrário do que se poderia pensar, pode nos levar ao senso de gratidão. Há muitos relatos sobre pessoas que passam por situações críticas, contextos de risco, tais como uma catástrofe natural, a perda de um emprego, uma separação, a perda de um ente querido, e que, a partir daí, despertam a gratidão pela vida.
Como diz Benjamin Franklin… “só damos valor a água no dia que o poço seca”. Esse raciocínio me levou a pensar na relação entre o “eterno” e a “privação” no contexto da gratidão.
Em geral, as pessoas vivem achando que tem o direito de ter coisas. Simplesmente, desfrutam de um privilégio particular, o qual justifica não desenvolver uma atitude de gratidão.
Vivem pensando que tudo é eterno e, portanto, não haverá falta. Os pais não morrerão, a comida não acabará, o marido estará sempre ao seu lado, os filhos jamais irão embora… para quê sentir gratidão por isso tudo?
A abundância, a fartura e a opulência são condições desfavoráveis ao despertar da gratidão, pois incitam no homem comum a insaciabilidade – o desejo de ter, cada vez mais, sem limites. O indivíduo açorado, ávido e cobiçoso não é capaz de enxergar o essencial que, para Antoine de Saint-Exupéry, no livro O Pequeno Príncipe, é invisível aos olhos.
Penso que a vida é calculista e didática, pois nos apresenta diariamente um confronto entre o eterno e a privação. Nunca sabemos quando seremos privados de algo e, muito menos, o quão eterno será o nosso passamento.
Se tiver o senso de privação em mente, não no sentido de lamúria, e sim de autoconsciência, a pessoa tende a valorizar mais o que lhe é ofertado. Isso amplia ainda a compreensão das leis cósmica que regem o dar e o receber, a causa e o efeito, as noções envilecidas de privilégio em contraste com a noção lógica do mérito.
Que seja eterno enquanto dure… Essa frase exprime o senso de valor do momento, do processo, da jornada, do caminho… A gratidão pela perenidade da nossa consciência precisa ser expressa a cada instante, seja cuidando com carinho do corpo físico, da alimentação, da saúde, fazendo exercícios… seja valorizando os laços familiares, as reconciliações, as auto-superações… aproveitar o aqui e agora para retribuir a gratidão sentida.
Chegaremos algum dia no momento em que não necessitaremos mais da privação para despertar a gratidão? Seremos capazes de ser grato por tudo e por todos, o tempo todo, independentemente de quanto tempo vai durar e se será ou não eterno?
Se ainda precisamos sentir a falta para valorizar, é porque não sabemos lidar com a abundância, e tendemos ficar cegos diante da fartura.
Você, leitor, se sente privado de algo ou alguém, hoje, na sua vida? Consegue reconhecer, expressar e retribuir a gratidão despertada nesse contexto? Qual o seu nível de insaciabliidade e alienação quanto a eternidade das coisas e pessoas?
Independente da sua resposta, lembre-se.. SEJAMOS GRATOS SEMPRE!
