O termo pújá significa em sânscrito um comportamento universal de gratidão, vivenciado em sentido hierarquicamente ascendente. Isso significa dizer que ele ocorre na relação filho/pais, aluno/professor, discípulo/mestre, devoto/divindade. Diz-se que jamais ocorre o contrário. E, em essência, se caracteriza como uma manifestação de gratidão vertical, de baixo para cima, uma reverência ou oferenda, por lealdade ou devoção.
No livro “A Força da Gratidão – Pújá, Sérgio Santos (2006) aborda as nuances da teoria e prática do pújá, que se expressa através de pensamentos, palavras, gestos e obras.
Embora seja apresentado como primeiro livro a desmistificar o assunto, a prática do pújá tem raízes nas tradições hindus e na filosofia do Yôga. O livro explora mais o sentido místico da gratidão, daquele que assume a auto-insuficiência perante o outro, sempre maior, mais forte, a ser venerado, adorado. Não menosprezando, é claro, o aspecto cultural da gratidão intergeracional, característica marcante do tratamento oriental distinto, aspecto positivo, fruto da experiência de vida.
No aspecto filosófico o pújá é rico de sabedoria, pois visa agir com abnegação e sem esperar retorno, motivado pela simples e espontânea satisfação pelo agradecimento, o ato de servir e se doar.
Mas, pensemos, a gratidão não seria, em tese, horizontal? Para mim, é. É uma via de mão dupla, que pode tanto se manifestar do pai com relação ao filho, e do filho com relação ao pai, por exemplo.
A homenagem e a honra de receber um auxílio de alguém considerado especial desperta não raro um sentimento de gratidão. O pújá tem um sentido de gratidão inato, mais relacionado com o respeito e humildade, fruto do reconhecimento com o preceptor, aquele que transmite conhecimentos. Nesta intenção, pode ser considerado uma retribuição de carinho ou uma atitude de agradecer, antes mesmo de receber, o que em si é nobre.
Haveria relação entre adoração e gratidão? O pújá é adoração para o Hinduísmo, e assemelha-se a algumas práticas de artes marciais orientais. Diz-se que a gratidão do discípulo aumentaria a empatia, a sintonia para com o mestre, e facilitaria o aprendizado.
Adoração, amor extremo, culto, homenagem e veneração exagerada… expressões que pouco combinam com a gratidão… um sentimento espontâneo, simples, sereno, lógico, racional.
A gratidão horizontal, a que flui de um indivíduo para o outro, no momento em que este reconhece, expressa e retribui o sentimento de gratidão vivenciado, ao receber um auxílio, um benefício assistencial concedido, por alguém que é considerado benfeitor.
A gratidão vertical, no sentimento cultural de adoração da sua expressão, é muito emocional, extremada, pulsional, instintiva… gera mais co-dependência, não estimula a auto-estima e a autosuficiência, ainda que, em si, a gratidão não deixe de exprimir uma lacuna existencial que é prestimosamente preenchida.
Adoração é falta de inteligência! É cegueira mental!. É paixão subserviente! Servilismo burro! Que a essência positiva do pújá seja repensada, desmistificando e desmitificando a sua prática, tornando-a mais horizontal, e menos vertical. Assim, sem dúvida, a força da gratidão será bem maior e mais eficiente, e conseguiremos sobrepujar a reflexão e o discernimento na vivência da gratidão, um sentimento elevado, fruto da inteligência lógica.
